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Um navio fantasma na Guerra do Ultramar - o que aconteceu ao Angoche?

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2 months ago

A 24 de Abril de 1971, o navio de carga Angoche foi encontrado à deriva no Oceano Índico, a cerca de 30 milhas da costa Moçambicana. Um incêndio deflagrara no convés e não havia qualquer sinal da tripulação. Os únicos seres vivos a bordo eram um cão e um gato, mascotes do navio. No dia anterior, o Angoche zarpara com 24 pessoas a bordo, 23 tripulantes e um passageiro, e o porão carregado de equipamento militar.

O cargueiro

O Angoche era um navio de carga que rotineiramente navegava pela costa Moçambicana, transportando um pouco de tudo, desde comida a combustível e, ocasionalmente, equipamento militar para o esforço de guerra que em 1971 ainda perdurava. A sua tripulação era composta por 9 Portugueses e 14 Moçambicanos, mas no dia 23 de Abril juntou-se-lhes um passageiro civil, um funcionário dos caminhos de ferro que havia sido mudado de posto e, por especial favor do capitão, embarcou juntamente com o seu automóvel para encurtar a viajem rumo ao novo local de trabalho.

Naquele dia a carga do Angoche consistia num carregamento típico, composto por matérias primas como farinha, açúcar e gasóleo, mas também uma grande quantidade de equipamento militar, incluindo 100 bombas de 50 kg cada, material aeronáutico e equipamento de engenharia.

O Angoche deveria ter alcançado Porto Amélia, a norte, no dia seguinte, onde todo este equipamento militar seria descarregado para seguir por terra até aos postos avançados do exército.

O navio nunca chegou ao porto.

O Angoche sendo rebocado pelo Esso Port Dickson

No dia seguinte, 24 de Abril, foi encontrado à deriva e com o convés em chamas pelo petroleiro Esso Port Dickson, a cerca de 30 milhas da costa e a mais de 300 milhas a sul do seu destino. Da tripulação apenas encontraram vestígios, incluindo manchas de sangue. Os únicos seres vivos a bordo eram um cão e um gato, as mascotes da tripulação, sãos e salvos.

As autoridades portuguesas acabaram por se apoderar do navio fantasma, rebocando-o para Lourenço Marques (atual Maputo). Supostamente o primeiro agente da autoridade a pôr os pés no navio foi Casimiro Monteiro, o infame oficial da PIDE conhecido como o Carniceiro de Goa, e responsável pelo assassinato de Humberto Delgado.

A versão oficial

Terá sido ele o responsável pelo primeiro relatório preliminar sobre o caso, escrito a 6 de maio, onde declarou haver indícios da detonação de duas cargas explosivas a bordo. A primeira teria sido perto da chaminé de estibordo, destruindo também a ponte de comando e, por conseguinte, todo o equipamento de comunicação do navio. A segunda teria sido no ventilador das máquinas.

Os locais não poderiam ter sido melhor escolhidos. Sem comunicação e sem motores, estas duas explosões tinham deixado o navio completamente imóvel e indefeso.

A ponte de comando

De acordo com o seu relato, os tripulantes não partilhavam todos das mesmas camaratas. Os portugueses, que incluíam não só marinheiros mas também o comandante, engenheiros e outras profissões especializadas, juntavam-se a bombordo, tendo sido apanhados pela primeira explosão. Já os Moçambicanos ocupavam a parte oposta do navio, onde não houve registo de danos. Em vez disso o que os inspetores lá encontraram foram roupas e outros objetos pessoais desarrumados e espalhados pelo chão, como que descartados à pressa.

Estes factos foram transmitidos a Marcello Caetano, o então líder português após a morte do Dr. Oliveira Salazar. No programa de televisão onde falava regularmente à nação, afirmou que parte da tripulação pereceu nas explosões, tendo os restantes saltado borda fora em pânico, acabando afogados ou comidos por tubarões.

Quem detonou os explosivos?

A teoria inicial da PIDE foi de que os responsáveis provinham da Tanzânia, o país vizinho a norte onde a Frelimo fora originalmente fundada, e portanto com uma ligação estreita à guerra que ainda durava. A África do Sul, vizinha oposta de Moçambique, tinha há pouco tempo enviado tropas para combater a Frelimo junto à fronteira com a Tanzânia, portanto o ataque ao Angoche poderia ser uma retaliação.

Seguiu-se uma segunda teoria, um pouco mais rebuscada, de que um submarino soviético teria abordado o Angoche, roubado o equipamento militar e levado a tripulação cativa. Os 24 homens teriam então sido transportados para a Tanzânia, permanecendo prisioneiros numa base da Frelimo junto da fronteira e, mais tarde, sendo executados.

Por fim, a última versão oficial foi de que os verdadeiros responsáveis eram soldados Portugueses rebeldes com ligações ao ARA - Ação Revolucionária Armada, o braço militar do Partido Comunista responsável por vários ataques em solo português. Nesse mesmo ano tinham levado a cabo um ataque na base de Tancos, conseguindo destruir vários aviões de guerra e outros equipamentos. Supostamente os resíduos explosivos encontrados no Angoche coincidiam com os utilizados nesse ataque. Assim, esses soldados traidores estacionados no porto de Nacala, de onde o Angoche partira na sua última missão, tinham colocado explosivos com temporizador que detonaram pouco depois de o navio ter deixado o porto.

Após os comunicados oficiais, abundaram rumores e notícias mal fundamentadas, desde supostas confirmações de os marinheiros raptados terem sido abatidos na Tanzânia, até avistamentos dos mesmos por parte de familiares ou conhecidos, sem que algum tenha alguma vez sido confirmado.

Após o 25 de Abril e consequente cessar-fogo da Guerra do Ultramar, o único desenvolvimento oficial foi um novo inquérito movido pelo estado que levou a lado nenhum. Não se encontraram os originais dos relatórios redigidos pela PIDE - que alguns afirmam estarem escondidos no Arquivo Nacional da Torre do Tombo - e que após todo este tempo seriam as únicas novas fontes de informação.

O navio, esse, foi supostamente vendido a uma empresa de sucata local e desmantelado.

As contradições

Alguns factos são difíceis de descortinar por entre a teia de rumores e inconsistências, entre versões oficiais e as notícias pouco fundamentadas.

  • A carga

As fontes dividem-se relativamente ao equipamento militar a bordo, que seria o grande motivo para qualquer ato de terrorismo ou pirataria. Alguns afirmam que estava intacto, enquanto outros aludem ao seu desaparecimento.

  • O barco salva-vidas.

Algumas fontes afirmam que um dos dois barcos salva-vidas não foi encontrado no navio, o que levantaria a possibilidade de alguns tripulantes terem fugido. Há inclusive rumores de que ele foi encontrado. Já outras fontes declaram que ambos estavam presentes, inclusivamente carbonizados pelo incêndio.

O que dizem os outros

Por entre as teorias alternativas, as mais proeminentes são as que colocam a culpa diretamente nas forças armadas portuguesas, que teriam levado a cabo um ataque ao Angoche como uma operação de bandeira falsa. O Coronel Carlos Matos Gomes, antigo comando do exército que combateu na Guerra Colonial, aponta a escolha cuidadosa dos locais para as bombas, e o profissionalismo geral da operação que não deixou testemunhas, como provas de ter sido levado a cabo por um militares experientes e não simples piratas, guerrilheiros ou tropas rebeldes.

O objetivo consistiria em apontar as culpas à Tanzânia e assim justificar operações militares dentro das suas fronteiras. A Frelimo, tendo sido fundada nesse país, detinha aí diversas bases de onde lançavam ataques em território moçambicano, mas não estando a Tanzânia oficialmente envolvida na guerra, as tropas portuguesas não estavam autorizadas a perseguir os guerrilheiros para lá da fronteira.

O Coronel Gomes especula ainda que o governo Sul-Africano poderia ter estado envolvido. À altura, os governantes daquele país temiam que a Guerra Colonial em Angola e Moçambique se espalhasse para sul e chegasse Às suas fronteiras. Para eles, quanto mais para norte a guerra se dirigisse, melhor.

O que aconteceu, afinal?

Tudo isto não passa, contudo, de mera especulação. Não houve qualquer outro desenvolvimento oficial e até aos dias de hoje, volvidos 50 anos, continuamos sem certezas relativamente a este caso. 24 homens desapareceram. Marinheiros, cozinheiros, engenheiros e um desafortunado funcionário dos caminhos de ferro que apenas queria chegar atempadamente ao seu novo posto.

Familiares e amigos dos desaparecidos passaram o resto das suas vidas sem resolução. A única coisa de que tinham a certeza era de nunca mais ter visto os homens do Angoche.

E você, caro leitor, o que acha que realmente aconteceu?

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2 months ago
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Comments

Não conhecia este episódio. Interessante. Onde foste buscar estas informações?

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2 months ago

Obrigado pelo comentário. As minhas fontes foram sobretudo várias reportagens em jornais e revistas nacionais, como a Visão e o Sol, juntamente com uma entrevista recente ao Coronel Gomes na revista Jornal de Notícias História.

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2 months ago