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O meu Fascismo é maior que o teu

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1 year ago
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Desde 1974 que não se ouvia falar tanto em fascismo. Aquele que se tornou o insulto de referência está em todo o lado. Obviamente na política, onde geralmente anda no encalço de determinados líderes, tão próximo e impossível de afastar como a própria sombra.

Bolsonaro é fascista. Ventura é fascista. Trump (que saudades os media devem ter dele) obviamente era fascista.

Qualquer posição ou opinião política com que não se concorde é, claro, fascista.

Mas a esfera política é demasiado pequena para conter esse monstro que tudo devora chamado fascismo. Mostrando-se mais internacional e omnipresente que o McDonald's ou a Coca-Cola, o fascismo chega a tudo e a todos.

Um dos passatempos mais nerd à face da terra, em comparação com o qual os videojogos ou a banda desenhada parecem coisa de macho - falo dos jogos de mesa com recurso a miniaturas - não consegue fugir à sombra do fascismo.

Warhammer 40k, um passatempo deveras político que envolve colecionar bonecos em miniatura, montá-los, pintá-los meticulosamente e, por fim, utilizá-los para simular batalhas espaciais recorrendo a regras e fórmulas capazes de dar a volta à cabeça de um professor de matemática, tudo isto ambientado num futuro imaginado em que a humanidade luta pela sobrevivência contra uma variedade de espécies alienígenas que a querem exterminar.

O problema? Esta sociedade humana do futuro é claramente fascista.

Felizmente ninguém o leva a sério, mesmo os próprios fãs peremptoriamente afirmam que tudo não passa de sátira, de tongue-in-cheek, e portanto não é para se levar a sério.

Ainda bem, caso contrário seria imediatamente cancelado.

Isso não impediu a Games Workshop, a editora do venerável jogo que já conta com mais de 3 décadas no mercado, de alienar uma boa parte da sua base de fãs quando, sem ninguém lhe perguntar nada, se chegou à frente e afirmou categoricamente que qualquer fã que não compartilhe dos seus ideais (seus? do CEO? do departamento de marketing? ou do departamento de justiça social?) deveria virar as costas ao jogo, pois não seria mais bem vindo.

Warhammer é para todos - exceto aqueles que não concordarem connosco.

O mesmo foi afirmado pela promotora do Amplifest, um festival de música nacional. Num comunicado oficial, declararam que quem votou no candidato André Ventura nas últimas eleições presidenciais, deveria ter o bom senso de não colocar os pés no recinto. Mesmo que tenha comprado bilhete.

Pensei que se tratava de um festival de música, e não de política.

Nem o Avante se interessa tanto pelos ideais dos seus visitantes, desde que paguem bilhete e encham assim os cofres do partido (sim, é capitalismo, mas se não os podes vencer junta-te a eles).

Ora, se há coisa de que me apercebi ao longo de largos anos a frequentar festivais de música, sobretudo heavy metal e derivados, foi que os seus frequentadores são impossíveis de rotular. Sim, em alguns aspetos correspondem inevitavelmente ao estereótipo. Vestidos de preto, com piercings e tatuagens, eles com coletes de ganga decorados com emblemas de bandas, elas com botas de cano alto, corpetes e rendas góticas.

Mas para lá do superficial, cada um é um ser humano único, com as suas crenças e ideais, sejam eles quais forem. Olhem para um metaleiro e será impossível saber qual a sua opinião sobre imigrantes ou gays, eutanásia ou aborto.

A única coisa que os amantes de música têm em comum - e isto é tão óbvio que até dói escrever - é precisamente a música. Tudo o resto pertence à privacidade da consciência de cada um.

Exceto os que quiserem ir ao Amplifest, esses terão de apresentar um comprovativo de idoneidade.

"Fujam! Vem aí o fascismo!"

O mais recente exemplo deste fenómeno é um artigo sobre o filme de culto Starship Troopers, que segundo o jornalista possui "um fedor insuportável a fascismo".

Há alguns anos lembro-me de ver o mesmo filme ser descrito como militarista e autoritário. Hoje em dia isso é apenas fascismo. Para quê descrever as coisas em detalhe se podemos abreviar tudo numa única palavra: fascismo.

Talvez a palavra acabe por perder o seu significado, se continuar a ser usada e abusada até entorpecer a audição. Quem nunca repetiu uma palavra 10, 20, 30 vezes até ela soar alienígena na língua e totalmente desprovida de sentido?.

Ou talvez se ganhe juízo antes.

Há que ter esperança.

O fascismo, no seu nível mais elementar, é caraterizado por dois elementos:

  • Nacionalismo

  • Autoritarismo.

O primeiro, longe de ser incentivado, atualmente está sob ameaça constante. Cidadãos naturalizados, que escolheram o nosso país para aqui viver e dele fazer parte, são os primeiros a querer derrubá-lo. Estes brasões deviam ser retirados, aquele monumento removido, a estátua destruída. É caso para perguntar: que tipo de mentecapto escolhe voluntariamente um país com tantos defeitos para nele viver o resto da vida? Um caso de masoquismo pós-colonial?

O autoritarismo, pelo seu lado, inverteu-se. Não é um líder carismático que ameaça a liberdade dos cidadãos, mas sim eles próprios, ou pelo menos uma franja acéfala e vocal que aglutina cada vez mais adeptos. A cultura do cancelamento que destrói a reputação e a subsistência de quem ousa falar ou pensar errado. Do politicamente correto que saneia o discurso com mais zelo que o lápis azul da censura, não vão as palavras malvadas ferir os sentimentos de alguém.

O problema do progressismo é que ele se devora a si mesmo, mas pelo caminho devora muitos mais. Há sempre alguém mais progressista que nós, e quando os alvos mais fáceis forem removidos, os radicais vão olhar a seguir para os moderados.

Quando os bolcheviques se apoderaram da Rússia, o seu objetivo era dizimar os ricos (eat the rich, como se ouve dizer por aí), ao qual hoje se costuma chamar o 1%.

Mas isso não os saciou. A seguir foi a burguesia, e a classe média, e por aí fora, até quase chegar ao fundo. Pequenos proprietários rurais, que após décadas de trabalho árduo foram capazes de juntar fundos suficientes para comprar o seu próprio terreno de cultivo, eram ricos em comparação com os agricultores que lavraram as terras dos outros - e portanto um alvo a abater.

O 1% rapidamente se transformou em 50%, e o sangue correu sem parar.

Da mesma forma, aqueles que se julgam progressistas não estão isentos de julgamento pelos seus camaradas.

J. K. Rowling, famosa pela série Harry Potter, e vocal defensora dos direitos lgbt, foi alvo de uma cruel campanha de cancelamento, motivada por uma diferença de opinião numa questão em particular - se os transsexuais biologicamente masculinos deveriam poder utilizar casas de banho femininas.

Uma autora que há 20 anos se viu na mira da direita conservadora americana pelos seus livros de magia que ofendiam cristãos evangélicos, é agora atacada pela esquerda progressista - não por ser de outro campo ideológico, mas apenas por não estar a 100% no mesmo. 99 não é suficiente para os radicais.

Há 20 anos o pior que lhe aconteceu foi certos pais não comprarem os seus livros para os filhos ou conseguirem retirá-los de bibliotecas escolares. Agora há livrarias que voluntariamente se recusam a vendê-los.

Por enquanto não se queimam, apenas não se podem vender. Por enquanto.

O mesmo aconteceu com os livros infantis do Dr. Seuss. Alguns em particular, mais precisamente 6, foram considerados ofensivos por incluírem caricaturas "racistas" de africanos, asiáticos e árabes. A própria editora foi a primeira a denunciar o crime, declarando que iria cessar imediatamente de produzir novas reimpressões dos livros infratores. Não tardou a que o eBay, a maior plataforma de compra e venda online, lhe seguisse as pisadas, proibindo a venda dos referidos livros.

Vou repetir, só para o caso de não terem compreendido a magnitude da frase anterior. O maior site de compra e venda do mundo proibiu a venda de determinados livros infantis, como se de material perigoso se tratasse. Não só será impossível comprar edições novas destes livros, mas mesmo os antigos terão de ser traficados de outro modo, talvez através de encontros sorrateiros em becos escuros.

"Hey, tens aquele livro do doutor sousse?

Os Marretas, a série clássica dos anos 70, que nos apresentou personagens inesquecíveis como o Sapo Cocas e a Miss Piggy, passa agora no Disney+ com um aviso: material potencialmente ofensivo.

O Pepe le Pew, o texugo aluado dos Looney Toons, foi corrido a pontapé do futuro Space Jam 2, continuação do filme clássico de 1996. Afinal de contas, ao romancear a gata contra a sua vontade, estava obviamente a propagar a masculinidade tóxica e a cultura de violação.

Quem sabe o que será censurado amanhã, ou no dia seguinte.

Este é o autoritarismo do século XXI, não do ditador, mas do ditado.

"Primeiro eles vieram buscar os racistas, mas eu nada disse, porque eu não era racista..."

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1 year ago
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Comments

Excelente artigo!

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1 year ago