Join 98,750 users already on read.cash

[PT] Impressões sobre Claude Monet

2 63 exc
Avatar for fernandotona
Written by   46
1 year ago
Sponsors of fernandotona
empty
empty

Há umas semanas atrás decidi guardar o smartphone, pegar num telemóvel de teclas que está por aí reservado para imprevistos e ler um livro que tinha comprado há muitos anos mas que estava parado, sem ser lido, sobre a vida e obra de Claude Monet, o famoso pintor associado à estética Impressionista. O livro em causa é o seguinte: https://isbnsearch.org/isbn/9783822861462

Decidi reunir algumas frases ou parágrafos curiosos e interessantes, pelo menos para mim, ainda mais por ter um carinho muito especial pela arte impressionista, também na música.

Página 10:

"Na vida dos dois pintores, que residiam e trabalhavam por vezes juntos, a boémia, no entanto, existia realmente. O pouco dinheiro que ganhavam a fazer retratos e outros pequenos trabalhos de encomenda era para pagar o aluguer, o carvão e a rapariga que posa para eles. As refeições são magras. Monet e Renoir fazem-se pagar em géneros por um dos seus clientes e, durante um mês, só comem feijão, cozinhado na estufa, que de qualquer modo era necessário acender para que a modelo não se constipasse. Depois do feijão serão as lentilhas. Renoir respondia a rir ao filho, que lhe perguntava se todos esses legumes secos não lhes tinham feito mal: «Nunca fui tão feliz na minha vida. Devo acrescentar que, de tempos a tempos, Monet descobria um convite para jantar e empaturrávamo-nos de peru recheado, regado com Chambertin.»"

Página 23:

«Aqui estou rodeado de tudo o que amo. Passo o meu tempo ao ar livre na praia rochosa quando há temporal ou os barcos vão à pesca... E depois, à noite, meu caro amigo, encontro na minha pequena casinha um bom fogo e uma boa e pequena família. Se pudesse ver como o seu afilhado está agora bonito... Graças a este senhor do Havre que veio em meu auxílio, gozo da mais perfeita serenidade, uma vez liberto de preocupações o meu desejo seria ficar sempre assim num canto da natureza, tranquilamente»

Página 31:

"A pintura de personagens usufruía de um tal favoritismo que podemos pensar que foi a forma como a tratavam Monet e os seus amigos que tanto irritou os seus contemporâneos. Os pintores académicos tinham feito o retrato do homem comum, como se se tratasse de Leónidas ou de Ulisses, da burguesa como se fora a bela Helena ou a virtuosa Diana, idealizando-os à luz da forma clássica. O cidadão que se passeia num quadro de Monet é representado como uma pequena bandeirola ao vento. Tal como um tufo de relva ou uma nuvem de fumo, ele não é nem mais nem menos do que um suporte de luz. «É então com isto que eu me pareço, enquanto passeio pelo boulevard des Capucines...? Com mil raios, estão a gozar comigo?», irrita-se o crítico Louis Leroy diante de Le Boulevard des Capucines exibindo ao público em abril de 1874, aquando da primeira exposição colectiva."

Página 41 (e início da seguinte):

"Havia já muito tempo que o edifício fascinava o pintor e assim nos faz crer o relato de Renoir da «tomada» da estação por Monet, no qual se descreve que não lhe faltou audácia para atingir o seu fim. «Cobre-se dos seus trajes mais belos, manda tufar a renda dos punhos e, brincando negligentemente com o punho de ouro do bastão, faz passar o cartão de visita ao director dos caminhos-de-ferro do Oeste da Estação de Saint-Lazare. O porteiro, espantado, manda-o pouco depois entrar. <Eu sou o pintor Claude Monet>. O director em questão ignorava tudo sobre pintura mas não o ousava confessar. Monet deixa-o divagar durante alguns instantes e depois anuncia-lhe a grande novidade. <Decidi pintar a sua estação. Hesitei muito tempo entre a Estação do Norte e a sua. Mas creio finalmente que a sua tem mais carácter.> Ele obtém assim tudo o que quer. Param os comboios, evacuam os cais, enchem as locomotivas de carvão para que o fumo saia delas como convém a Monet. Como um tirano, instala-se nesta estação, pinta aí no meio do recolhimento geral durante dias inteiros e finalmente parte com uma boa meia dúzia de quadros...»

Página 45:

"Albert Wolff em Le Figaro não esconde o seu desprezo pelos pintores inovadores: «A Rue Peletier está doente. Após o incêndio da Ópera, eis que um novo desastre se abate sobre o bairro. Acaba de ser aberta ao público, na galeria de Durand-Ruel, uma exposição que dizem ser de pintura... Cinco ou seis alienados, de entre os quais uma mulher, um grupo de infelizes tomados pela loucura da ambição encontraram-se ali para expor as suas obras... Eles pegam nas telas, nas cores e nos pincéis, atiram ao acaso alguns tons e depois assinam o conjunto.» Estes artigos não tinham apenas um interesse anedótico, testemunham uma tradição de crítica violenta, típica dos jornais da época. Os autores, armados com a sua pluma mais cáustica, agradavam pelo seu espírito sarcástico e seus julgamentos sem apelo. Com a justificação de defenderem os valores da pintura académica, eram capazes, muitas vezes pelo prazer de uma palavra, de arrasar uma carreira. Os seus decretos não pretendiam apenas atingir a reputação do artista, influenciavam também as suas vendas e, como foi o caso, durante mais de vinte anos, dos impressionistas, desacreditavam os mecenas e os coleccionadores ao fazê-los passar por débeis mentais ou, pelo menos, por cegos."

Página 48:

«Começo a não ser já um principiante e é triste chegar à minha idade numa tal situação, sempre obrigado a pedir, a solicitar algo. Revivo duplamente o meu infortúnio nesta altura do ano e 1879 vai começar como acabou este ano, muito tristemente, sobretudo para a minha família, à qual nem sequer posso oferecer o mais modesto dos presentes.»

"Desde há algum tempo que a sua mulher está doente, muito provavelmente devido a um aborto mal feito. Ela já não recuperará. Camille Doncieux, a única modelo de Monet, a mulher de vestido verde, aquela que passeava de sombrinha e vestidos claros de verão por entre os prados e os campos de papoilas e que veio a ser a Musa radiante do impressionismo, morre a 5 de setembro de 1879.

Ela tem apenas 32 anos de idade e deixa dois rapazinhos e um marido desesperado, que se amaldiçoa a si próprio e ao mundo inteiro. «Certo dia, estando eu à cabeceira do leito de uma morta que me foi sempre e é muito querida, surpreendi-me, os olhos fixos no tempo trágico, no gesto de procurar maquinalmente a sucessão, a apropriação dos esbatimentos de cores que a morte veio impor à face imóvel. Tons de azul, de amarelo, de cinzento, que sei eu? Onde cheguei... Muito natural o desejo de reproduzir a última imagem daquela que nos iria deixar para sempre. mas antes mesmo de me ter surgido a ideia de fixar os traços aos quais eu tinha estado tão profundamente ligado, eis que o automatismo orgânico freme de imediato aos choques da cor, e os reflexos exortam, contra a minha vontade, numa operação do insconsciente onde se retoma o curso quotidiano da minha vida. É este o meu fado. Lamente-me, meu amigo.»"

Página 63:

"Monet parte de viagem pouco depois de se ter instalado em Giverny. Em dezembro de 1883, viaja com Renoir para o sul da França. Ele não transporta consigo, como tantos pintores o fizeram e o farão depois dele, o caderno de esboços, lápis e aguarelas, mas leva um cavalete, uma paleta, várias dúzias de telas e uma grande mala cheia de agasalhos. Um verdadeiro equipamento que não deixava de despertar, sem dúvida, a curiosidade dos outros viajantes. Renoir relatou ao seu filho muitas destas viagens. Em primeira classe, os passageiros esforçavam-se por parecerem fatigados e pensativos, e um pintor como todo o seu material teria tido o ar de «um carvoeiro que, por acaso, penetrou num desfile de manequins da moda». Em segunda classe, era ainda pior: «O ar sério dos utentes aumentaria pelo facto de não poderem pagar a primeira classe.» Renoir só tem elogios para a terceira classe, a única a que, outrora, os jovens pintores se podiam dar ao luxo e que eles continuam a preferir. Alguns dos viajantes parecem estar preparados para dar a volta ao mundo, o menu desenrola-se com os quilómetros e os artistas aproveitam-se. «Passava-se do bolo borguinhês ao estufado provençal, da nova água-pé da Côte d'Or aos rosés generosos das margens do Ródano.» Para além disto tudo, as considerações sobre a colheita, as preocupações familiares, os impostos e o martírio do espartilho: «Após as primeiras dentadas, acontecia que uma fértil camponesa não aguentando mais desculpava-se e desabotoava o corpete e pedia à sua vizinha para lhe desabotoar o espartilho nas costas. As carnes assim libertas podiam estender-se à vontade e o pâté de lebre tomava então todo o seu sabor.»"

Página 71:

"No entanto, no princípio da sua instalação, a vida não foi fácil. O casal que, na época, não era casado e os seus oito filhos traquinas apresentavam-se, aos olhos dos vizinhos camponeses, como bastante estranhos. Eis um homem que dizem ser um pintor moderno, que sai todas as manhãs ao nascer do Sol, atravessa os prados com um passo pesado, seguido dos filhos que transportam o seu material de pintura e as suas telas um carrinho de mão, se instala diante das medas de feno ou das árvores para as reproduzir em grandes traços nas telas que muda de cinco em cinco minutos. Astuciosa, a população rural depressa percebe as vantagens que pode tirar deste estouvado. Fazem-no pagar um imposto por atravessar as suas terras e, como que por acaso, é necessário carregar a meda de feno ou abater o álamo que Monet começou a pintar. A conservação destes temas custam-lhe uma fortuna. Mais tarde, como ele pretende colocar algumas plantas exóticas num lago, os camponeses fazem um escândalo: as plantas vão estragar a roupa branca que eles lavam no ribeiro ou envenenar o gado que bebe água mais abaixo."

Página 86:

"Monet sonhava há muito tempo em apresentar os nenúfares num espaço que desse a ilusão de um todo infinito e que criasse um ambiente repousante de meditação. Ele aceita fazer diversas telas, na condição de lhe construírem uma sala de exposição que corresponda aos seus desejos. Chegam a acordo em relação ao jardim do Hotel Biron onde se encontra desde há pouco um museu consagrado ao escultor Rodin. Um arquitecto faz os planos de um pavilhão de dimensões razoáveis que deve ser construído no extremo da propriedade e que compreende uma peça circular para acolher doze painéis. Mas o Ministério das Obras Públicas recusa o projecto, considerando, sem dúvida, que uma construção especial seria demasiada honra para o artista.

Monet decide então anular a doação e os compradores americanos e japoneses aparecem, desejosos de adquirir a série inteira para os seus respectivos museus. É graças à intervenção do seu amigo Clemenceau, que considera que as Grandes Decorações são um pouco o «seu» projecto, que Monet aceita para as suas telas uma sala da Orangerie, que depende do Louvre. Os Nenúfares são aí instalados após a morte do pintor, em duas salas de forma oval. Hoje muito visitados, foram durante muito tempo quase desconhecidos do público. Só foram descobertos nos anos 50, nomeadamente por pintores como Sam Francis, e foi necessário esperar pelo expressionismo abstracto para que a pintura do fim da carreira de Monet fosse verdadeiramente compreendida."

Página 91:

"Monet não era um ser religioso, era um positivista convicto. Se não tivesse sido um materialista da cor, os seus exegetas teriam, sem dúvida, visto nos seus últimos quadros o Inferno de Dante e teriam situado a ponte japonesa no purgatório, pois, no fim da vida deste homem, que tanto amou a água e a sua frescura e que desejava que a água fosse a sua última morada, está o incêndio: ele pinta o seu lago em chamas. As últimas obras testemunham uma energia intensa, uma vitalidade que tinha contribuído para libertar a arte do jugo académico e que tinha ensinado a ver aos artistas e ao público, como se este Prometeu fazendo jorrar o fogo da modernidade pelas suas próprias mãos nos últimos quadros. A força que susteve Monet ao longo de toda a sua vida e da sua arte consome-se em altas chamas e, neste breve braseiro, consome-se bruscamente. Monet morre a 6 de dezembro de 1926 com oitenta e seis anos de idade."

Na tua opinião, de que forma te parece que o enredo à volta das artes no tempo do Monet se assemelha aos dias de hoje? Em que te parece diferir? Neste caso, apresento um pintor que marcou definitivamente a história da pintura. Parece-te que as mesmas respostas às perguntas anteriores podem ser aplicadas às artes performativas? E às audiovisuais? E a todas as outras? Deixa o teu comentário!

2
$ 4.60
$ 4.60 from @TheRandomRewarder
Sponsors of fernandotona
empty
empty
Avatar for fernandotona
Written by   46
1 year ago
Enjoyed this article?  Earn Bitcoin Cash by sharing it! Explain
...and you will also help the author collect more tips.

Comments

Tem algumas passagens interessantes.

Acho que qualquer artista, independentemente do meio, sente as dificuldades de monetisar a sua arte. A escolha muitas vezes é entre o sucesso profissional numa área que não nos satisfaz, ou dedicar-mo-nos à arte e não passar da miséria.

Já cena de pintar a estação é uma grande lição. Pode-se conseguir muita coisa nesta vida se simplesmente pedir-mos, sobretudo se o fizermos com autoridade e a postura adequada.

$ 0.00
1 year ago

Sim! É necessária muita astúcia, para além de "inteligência" ou "talento" inato. É uma ideia que já tinha e que de certa forma Monet me fez reiterar.

$ 0.00
1 year ago