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[PT] iConversa: Um olhar sobre as legislativas 2022

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iConversa | 6 de fevereiro de 2022 | Fernando Tona

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No passado domingo, dia 30 de janeiro de 2022, o Partido Socialista ganhou por maioria absoluta, obtendo provisoriamente 117 deputados. Provisoriamente pois, à data da publicação deste artigo, falta serem apurados os resultados dos 4 deputados que serão eleitos pelos círculos eleitorais da Europa e de fora da Europa. Já desde fevereiro do ano passado que o Presidente da Iniciativa Liberal, João Cotrim Figueiredo, dizia que o PS iria tentar criar uma crise política propositada, em outubro, para provocar eleições legislativas antecipadas caso sentisse que podia atingir a maioria absoluta. Confirmou-se.

Estou incrédulo. Depois dos escândalos com os ministros Eduardo Cabrita, Francisca Van Dunem, Pedro Nuno Santos, Tiago Brandão Rodrigues, Graça Fonseca (paremos de contar)... pergunto-me: como é possível o PS ter maioria absoluta? Bom, aqui deixo uma breve análise, partido a partido, do que me pareceram ser os motivos dos resultados.

Pessoas-Animais-Natureza (PAN): O partido passou de 4 para 1 deputada, eleita no fim da noite eleitoral depois de não haver esperança, quase por milagre. O partido quando surgiu e quando entrou no parlamento trouxe, sem dúvida, de forma mais focada e renovada o tema do cuidado do meio ambiente e dos direitos dos animais. O problema do PAN é que as suas causas também têm sido absorvidas por outros partidos e ficou sem grandes argumentos que levassem as pessoas a escolherem-no. A pobreza em Portugal é cada vez mais clara e as propostas económicas para os mais desfavorecidos não existiram de forma convincente. Apesar de a Inês Sousa Real se mostrar recetiva a dialogar com todas as partes, foi demonstrando alguma inclinação à sua esquerda, mas, lá está, sem propostas concretas. Todos gostamos do meio ambiente, mas primeiro é necessário pão na mesa. E outros partidos de todo o espectro político ofereceram propostas tanto para o pão como para o ambiente. As polémicas com as empresas agrícolas da líder também não ajudaram, bem como os deputados e militantes que foram abandonando o partido ao longo da última legislatura e a saída mal explicada do André Silva da direção. No fim da noite eleitoral, a Inês Sousa Real decidiu dar mais um tiro no pé logo no seu primeiro discurso ao assumir-se claramente de esquerda ao invés de "neutral", com uma linguagem quase marxista-wokista. Se o eleitorado do PAN tivesse ouvido o que ela disse, mas no dia anterior às eleições, acredito que o partido desaparecia do parlamento. O seu eleitorado provavelmente teria-se dispersado ainda mais. Dica de boa fé, sugestão, se o partido se quer reinventar, que assuma algumas das lutas do Pirate Party. Acho que até se sentam juntos no Parlamento Europeu e tudo 🤫

LIVRE (L): Depois da queda do Livre com a aposta furada na Joacine, era de prever que Rui Tavares, a cara mais conhecida do partido, fosse o ponta de lança para salvar o partido e mantê-lo com representação parlamentar. Acredito que por assumir-se, pelo menos da boca para fora, como um partido de esquerda "não-marxista" - e tristemente as causas que defende são associadas à esquerda, como se quem não vota esquerda não gostasse de árvores nem de rios ou não goste de respirar ar limpo (vá lá, autointeresse em ter água e ar limpo para todos não é possível ser apolítico?) - tenha beneficiado e chamado para si algum eleitorado "neutro", por ainda ser "esquerda" talvez tenha canalizado votos mais moderados desse espaço e, para muitos jovens talvez possa apresentar um programa diferente, virado para o futuro ou inovador. Acontece que ainda tenho presente o programa eleitoral do partido Livre/Tempo de Avançar para as legislativas de 2015 e parece-me ter apresentado mais do mesmo. Sim Rui. Já o acompanho há uns anos. Estive quase para lhe dar uma palmadinha nas costas há uns valentes anos atrás num protesto do Ensino Artístico Especializado e do Ensino Particular e Cooperativo frente ao MEC em Lisboa, na altura do Nuno Crato, do POPH, do POCH... O senhor apelava à "união da esquerda". Calma, não queira pensar que sou de esquerda. O meu autointeresse em querer o melhor para mim e para os meus alunos me levou naquela época a aderir ao protesto. Confesso-lhe que ia vomitando com a presença da Rita Rato, da Catarina Martins, do Mário Nogueira... Bom. Mesmo a proposta de testar o Rendimento Básico Incondicional (RBI), outros partidos como o PAN e o Volt também a tinham para estas legislativas. É de salientar que isto pode parecer algo novo, moderno e humanista. Na verdade, já no passado liberais como o Thomas Paine o tinham proposto. Aliás, o lendário bicho papão do "neoliberal" Milton Friedman também o propôs no seu livro Capitalismo e Liberdade (1962)! Bom, ok, ele não propôs um RBI tal como o do Rui Tavares. Ele propunha um Negative Income Tax. Na prática, logo no início do vídeo que deixo em baixo, ele defendia a garantia de um acesso universal a um ordenado de 1500$ para quem ganha 0$. O valor recebido do Estado é progressivo pois resulta da percentagem de 50% sobre a diferença entre 3000$ menos o valor do ordenado da pessoa. Este rendimento de facto não é incondicional, pois há uma condição, que é a de o beneficiário ser pobre ao ganhar menos de 3000$. Desta forma garantir-se-ia que, tanto os que não trabalham como os que trabalham mas têm ordenados muito baixos, tenham algum rendimento básico, seja através do seu emprego, seja através da redistribuição de riqueza através do Estado sob a forma de imposto negativo sobre rendimentos, como complemento. Aliás! Aliás!... Elon Musk e Mark Zuckerberg... ahem! bom. Adiante!

Eu não tenho uma opinião definitiva ou uma especulação definitiva sobre o que pode resultar com o teste da implementação disto. Sou todo ouvidos. Por exemplo, pessoalmente entendo o argumento de alguns a favor do Rendimento Básico Incondicional para todos quando se vão perdendo empregos para o automatismo e robotização dos processos de produção de riqueza. Não sei se é solução, não tenho opinião sobre isso estar certo ou errado. Mas, pense o leitor comigo, será que os senhorios irão manter os preços dos alugueres ou será que o preço de outro tipo de serviços às prestações mensais irá manter-se quando o fornecedor ou prestador souber qual o valor mínimo que terá sempre disponível na sua carteira, não havendo total sigilo bancário ainda por cima? Nunca lhe passou o doentio sonho pela cabeça de querer saber quanto é que as outras pessoas têm na carteira como mínimo, para estipular um preço a cobrar-lhes conforme a carteira do cliente partindo desse conhecimento prévio? Ai eu como músico já sonhei com isso já. "Uish este tem pelo menos 1000€ a entrarem certinhos na conta corrente ao mês só por existir. Em vez de lhe cobrar 150€ pela pequena intervenção musical que me solicitou, vou-lhe mas é cobrar 1000€ porque no mínimo esses tenho a certeza que os tem disponíveis. Shhhh!" Oh Sr. Rui, já agora, o que foi aquilo de dizer no outro dia ao Carlos Guimarães Pinto que o Edmund Burke é um dos grandes do pensamento liberal? O senhor percebe de História e de Ciência Política muito mais do que eu com certeza, esse aí não é mais considerado pai do Conservadorismo moderno? Mesmo que seja um dos pais do Liberalismo e não do Conservadorismo moderno, o que é que isso interessa? Não é suposto as pessoas pensarem exatamente igual umas às outras nem aos seus antepassados. O senhor nunca tem discórdias dentro do seu partido ou pensam todos igual? Seria bom que houvesse discórdia, discordar é sinal de pensamento. Os deputados são eleitos para pensarem por si próprios é claro. E pensando por si próprios podem decidir escolher fazer o que acham, mesmo que o que acham esteja certo ou errado. Chama-se LIVRE arbítrio, LIVRE pensamento. Vá, é Tempo de Avançar!

Centro Democrático Social - Partido "Popular" (CDS-PP): A popularidade deste partido neste momento está só no nome. A atual liderança esteve envolvida em muitas polémicas, sendo que o Francisco Rodrigues dos Santos mostrava um lado irascível agarotado com o qual a população comum não se identifica. Aquele conservadorismo católico moderado tão presente num jovem é tão forçado... "Olh'ó puto a querer dar o exemplo de moralidade e seriedade, a afirmar com definitivismo o que entende ser ou não uma bandalheira, haha!". Além disso, o que é que ele já fez profissionalmente de relevo no seu percurso? O que eu tenho visto no CDS de cima abaixo tem sido traços de vontade de perpetuação no poder, de poder pelo poder. Eu sinceramente sempre tive má impressão do partido, tanto ao nível local como ao nível nacional, embora conheça pessoalmente muitíssimas boas pessoas que militam ou militaram no partido, ou pessoas que apenas simpatizam ou simpatizavam com o partido. Arrogância atrás de ignorância é o que conheço aos restantes. Depois da debandada de militantes importantes como o Adolfo Mesquita Nunes que saíram em conflito com a direção, goste-se ou não a única pessoa carismática e respeitável que sobrou foi a Cecília Meireles, e ela também demonstrou estar em conflito com a atual direção. Aliás, não foi candidata nestas legislativas sequer. Na minha opinião, mesmo com o que tem acontecido, o CDS teima em querer continuar a afundar-se. Acredito que as pessoas só votariam novamente no CDS, talvez, se fosse a Cecília Meireles a assumir as rédeas do partido ao invés do Nuno Melo. A única com carisma e respeitada que sobrou. O Nuno Melo ouvi-o há uns tempos e deu para perceber que a estratégia para recuperar votos seria, em resumo e satirizando, andar por aí a distribuir terços nas aldeias e a agitar bandeiras LGBT nas cidades para reconquistar votos que foram para a IL e para o Chega. Zero deputados eleitos. Um partido com forte implantação em todo o território nacional, concelhias em todo lado... Só não se enterraram mais porque não estudaram para isso. Well done!

Bloco de Esquerda (BE): passou de 19 para 5 deputades. Sim, escrevi mal e não estou a conseguir corrigir no minha teclade. Eu acho que o povo não enche a barriga de conversa e de "apoios". As propostas têm de ser credíveis. Focaram-se em combater "o candidato da extrema-direita" mas, e propostas para quem acha que há mais vida para além de aVenturas? Continuaram os maus resultados que têm tido desde as últimas presidenciais. Viram uma debandada de eleitores fugirem para o PS no voto útil também e alguns dizem que pode ter sido castigo por terem chumbado o Orçamento do Estado 2022. Eu acho que andar por aí a pintar os lábios de vermelho, chamar toda a gente de fachista, facho, neoliberal e mais uma série de adjetivos pejorativos (conforme o ponto de vista) não resolve os problemas de ninguém. Cultura de cancelamento também não. O seu típico "Não passarão" lembra-me sempre a fantasia d'O Senhor dos Anéis: "You shall not pass!". O wokismo já viu tempos mais áureos. Vamos lá ver, o que é que propõem para além dos vagos "apoios" que não se sabe de onde é que os vão buscar? Vão buscá-los a mais impostos? Mas quais apoios? Aqueles apoios que dão aos pobres mas que depois lhos voltam a tirar com os impostos que atualmente pagam nas ruas? As pessoas querem subir pelo seu próprio pulso. O eleitorado jovem, que era o seu forte bastião, está a ficar farto da oferta de "apoios" e quer é que o seu trabalho seja salarialmente reconhecido como na Holanda ou na Irlanda. Para isso, é necessário a economia ser pujante e robusta de forma aos jovens poderem dar-se o luxo de escolher ou recusar o empregador ou os salários que surgirem e para não lhes passar pela cabeça emigrar para os países que citei, no meio de tantos outros por essa Europa fora. Os jovens sim queremos "borla fiscal". Não concordo muito com a frase "imposto é roubo", mas com certeza a atual carga fiscal é um verdadeiro assalto. É pecado querer pagar menos impostos? A sua perseguição ao lucro e às "borlas fiscais" parece a inquisição ao tentar queimar na fogueira os impuros. As receitas que sustentam o "Estado Social" não nascem nas árvores. Os iogurtes não nascem nas árvores. Isso só é possível com crescimento económico neste momento. As pessoas estão já enjoadas da conversa dos "CEOs" e do lucro. Eu, como jovem, não quero saber nem me interessa para nada o que os CEOs ganham. Eu na verdade quero que eles se encham de moscas. Eu sou pobre e quero ser rico também ou, no mínimo, classe média. Desde que esses papões dos CEOs não recebam ordenados chorudos e injustificados dos meus impostos, como vai acontecer com os CEOs da TAP que o Bloco apoiou nacionalizar, problema deles e dos consumidores que optarem de forma voluntária torná-los mais ricos. Eu, pelo menos até agora, tenho optado voluntariamente por não comprar nada da Apple - bem, a verdade é que mesmo que quisesse não podia, tenho muito IVA para pagar na eletricidade, muito IRS para descontar, muito imposto sobre os combustíveis pois não moro numa área metropolitana onde os transportes públicos, autocarros, metros, abundem. Eu, sempre que possível, opto voluntariamente por Software Livre e de Código Aberto (e totalmente gratuito na maioria das vezes até!) como Linux, por exemplo, ao invés de enriquecer os cofres da Microsoft ou da Apple. Nada contra eles serem ricos, mas os consumidores é que assim decidem, sem o meu apoio. Será que a Mariana Mortágua abdica do seu humilde iPhone para usar um Android com GrapheneOS ou LineageOS? Laughing Out Loud. Vá ao Twitter dela e veja se não diz lá "Twitter for iPhone" por baixo dos seus incendiários e anticapitalistas tweets. Esquerda caviar. Depois os liberais e "a direita" é que são os únicos betos. O que diria Karl Marx sobre a hereditariedade de cargos enquanto deputados? Leonor Rosas, filha de Fernando Rosas, em posição elegível para deputada? "Abaixo as hierarquias!". Offshores praqui, precários prali, parvoíces como "empresas sem lucro", "os grandes capitais", vivem em Nárnia, são mesmo desonestos ou andam perdidos e sem criatividade? Volta Louçã estás perdoado! Não, não voltes nada por favor. Continua lá na SIC a ganhar o teu (sabe bem não ganhar tão pouco) que assim continuas a tentar influenciar os tolos com as tuas papas e os teus bolos. "Game Over!".

Partido Comunista Português (PCP): Quem me conhece pessoalmente deve perceber que tenho uma pena dos diabos, para não dizer do caral... passou de 12 para 6. De pé oh vítimas da fome! Muita fominha passarão. Nah, nada disso, com tanto património imobiliário com certeza deverão ter emprego para muita gente enquanto CEO... perdão, enquanto camaradas que gerem os fundos do coletivo. Ok, agora falando menos a sério, qual a proposta para além da crítica? A maior parte dos e das cabeças de lista pareciam-me atores e atrizes de um filme em que representam o papel de secretários da Stasi com máquinas de escrever antigonas à frente. Ainda há pouco tempo vi a mini-série Chernobyl da HBO e lembrei-me tantas vezes do PCP. Avante. Comités Centrais, conservadorismo social como na eutanásia, qual é a luta que continua? Os direitos dos trabalhadores em teletrabalho, boa, apoio, e mais? É que durante 6 anos aquelas lutas todas do tempo do Passos não continuaram. Onde andaram os protestos dos seus líderes sindicais? Zero! A partir do próximo mês lá irão começar os protestos. Lá vai começar a aparecer novamente o desaparecido do Mário Nogueira na TV. Agora, de um momento para o outro, irão aparecer motivos para bater o pé, assim de repente. Irão surgir problemas que não existiram nos últimos 6 anos. Sofreram também com a estratégia de esvaziamento do apelo ao voto útil e pedido de maioria absoluta do António Costa é verdade. Mas andam a perder terreno no Alentejo e noutras regiões que sempre foram seus bastiões, precisamente para a "extrema direita". Não me admira, coletivistas a substituírem coletivistas. Não tenho pena deles. Lamento. Não se solidarizassem com a Roubolução Bolivariana. Problemas pessoais com eles caro leitor. Desculpe a falta de profissionalismo. Longa, pessoal e irreconciliável triste história. Eu conheço a roubolução bolivariana e o consequente êxodo que criou, na primeira pessoa, a fundo. Marxismo-leninismo, vá lá, democrático? Não passarão!!!

Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV): Passaram para zero deputados. Alguém notou que tinham lá alguém? Bom, se calhar eram mesmo verdes verdinhos ecologistas e tinham lá árvores muito quietinhas no parlamento. Se calhar é por isso que ninguém dava por eles no parlamento e ninguém sentirá a falta deles pois o teto do hemiciclo, graças a Marx, consegue proteger as pessoas do sol. O que é que se perdeu deles que não possa ser substituído pelo Livre, PAN, PS, Bloco de Esquerda e até mesmo por parte da "direita democrática" que feliz e finalmente está a começar a acordar para a defesa ambiental...? Eu acho que o PEV só existia para poder haver uma pseudo-coligação pseudo-moderada chamada CDU. "Ai e tal essa coligação não é só pessoal comunista, tem lá OS Verdes". Acabou essa estratégia de marketing eleitoral de emprestar a sombra das suas árvores ao PCP.

Partido Socialista (PS): Já referi parte do que considero ser a justificação da estrondosa vitória do Partido Socialista nos parágrafos anteriores. Esvaziou os votos dos partidos à sua esquerda, conseguiu manter os seus eleitores fidelizados e provavelmente terá sugado alguns votos ao centro. Jogada mestre do António Costa. Roubou votos ao PCP e BE como previsto apelando ao voto útil e à estabilidade governativa. A população tem medo da instabilidade governativa. "Ai Jesus ai Jesus se isto não estabiliza". Com papas e bolos sim enganam-se os tolos. Tropecei num interessante artigo da Maria Castello Branco que me leva a perguntar o que é que terá mudado desde 1987 na forma de ser e de agir das pessoas. Eis um curioso parágrafo:

O PRD, que afinal de contas tinha provocado (ou pelo menos pressionado o gatilho) a crise política, foi fortemente penalizado pelos eleitores. Caíam do terraço de um grupo parlamentar de 45 deputados para serem agora um partido táxi-familiar, com 7 representantes. A população portuguesa respondeu ao apelo de Cavaco, temendo a instabilidade política: o PSD, contra as previsões que a História poderia dar, consegue a primeira maioria absoluta da nossa Democracia. Soa familiar?

Partido Social Democrata (PSD): O PSD, independentemente de quem for o líder, ficará sempre marcado nos próximos tempos pela austeridade do governo de Pedro Passos Coelho. Há os que endeusam o governo Passos e dizem que ele fez o que tinha de ser feito. Há os que o endeusam dizendo que não havia mais opções e que ele não conseguia cortar menos do que cortou. Há os que o deploram, ainda por cima tendo criado um assalariado cargo inédito de vice-primeiro ministro para o Paulo Portas em plena crise económica. Cortes para os de baixo, nunca para os de cima. Mas os que endeusam esse governo Passos não viram em Rui Rio uma figura próxima e muitos dos que detestam esse governo Passos recearam uma governança ao estilo Passos. O povo também aderiu à retórica promovida pela esquerda do perigo de o PSD fazer uma coligação pós-eleitoral com o CHEGA e formar um governo Passista mas muito mais conservador do ponto de vista dos direitos e liberdades políticas e sociais. Então para este povo "centrista" ou neutro, havia que votar no PS para impedir isto e não votou PSD nem se absteve. As sondagens a dar empate técnico mobilizaram as pessoas a votar PS para que esse empate não se concretizasse. Eu, para além desta perceção, tenho duas histórias caricatas para contar sobre o PSD para estas eleições legislativas. Atenção, o PSD não teve nenhuma estrondosa derrota pois os seus resultados não foram muito diferentes do que foram em 2019.

Uma história caricata que tenho é sobre uma breve conversa que tive com um trabalhador comum das classes baixas, da mão de obra não-qualificada mas com alguma escolarização. Esse trabalhador não é propriamente um eleitor de esquerda. Sei disso pois conheço-o razoavelmente bem. Eis o que me disse sobre o PSD, parafraseando:

"Eu não vou votar naquele Rui Rio porque há muitos anos atrás conheci-o quando trabalhava na ##### (fábrica na zona de Águeda). Ele chegou, não teve uma única palavra de apreço para com os trabalhadores, seguiu em frente para se reunir com a junta diretiva. Depois foram todos juntos comer leitão e beber espumante pois estamos na Bairrada".

Outra história caricata que tenho é a de uma senhora que trabalha como auxiliar numa escola. Parafraseando:

"Eu não vou votar na esquerda porque eles estão a condenar o futuro dos jovens e estão a habituar Portugal a ser um país de salários mínimos. Mesmo que seja contra mim, não vou votar neles. Não vou votar no António Costa porque é um mentiroso. Mas também não vou votar no Rui Rio. Eu não confio em homens com o cabelo assim. Parece um mafioso. Parece o Berlusconi ou o Santana Lopes. E aquela voz de gozo e o que ele diz não me transmitem confiança. Se calhar não vou votar em ninguém."

Será que o PSD, estando tão implantado em todo o território nacional, conseguiu realmente ter esta perceção da opinião de parte significativa da população em relação ao partido e aos candidatos do partido? O que tinham para propor? Porque descer IRC e não primeiro IRS? O que é mais importante para fazer a economia realmente crescer? Mais rendimento líquido no bolso de todos os agentes económicos ou apenas descer os impostos sobre as empresas? Será que as empresas não beneficiariam também da descida do IRS ao não precisarem de pagar mais para conseguir subir ordenados líquidos aos trabalhadores? Será que descendo IRS as empresas não estariam também em melhores condições de competir com empresas no estrangeiro ao conseguir segurar mão de obra de qualidade cá? Será que aumentando o rendimento líquido no bolso das famílias não se estaria a aumentar a faturação do grosso do tecido empresarial também? É lógico, para mim, que também é necessário descer IRC, IVA, e mais e mais impostos. Mas a prioridade do PSD era o IRC e não o IRS ou o IVA. Qual ou quais destes impostos afeta de forma mais direta o bolso dos eleitores? Mais, o que era aquilo da plantação de eucaliptos que não percebi bem? Os eucaliptos não são pólvora? Ouvi dizer que temos uma seca severa aí a chegar, os eucaliptos sugam muita água e ardem com facilidade... porque eucaliptos? Não há outras árvores autóctones menos inflamáveis e que suguem menos água que possam ser plantadas? hmmm, cheira-me a esturro... Penso que a muitos também cheirou... Cavaco Silva, eucaliptos, celulose... não sei, não quero alimentar intrigas nem difamar ninguém. Pago demasiado IRS, IVA e ISP, não IRC, e por isso não tenho liquidez para contratar um advogado que me defenda contra uma acusação de crime de difamação.

CHEGA (CH): Graças aos partidos de esquerda andarem desde o 25 de abril de 1974 a brincar ao Pedro e os fascistas agora temos 12 deputados do Chega no parlamento. Quem os atacou não soube apresentar soluções que desconstruíssem os argumentos deles e uma das bandeiras principais do partido: O combate à subsidiodependência, especialmente à dos cidadãos da etnia cigana. Os partidos que se dedicaram a atacá-los deveriam ter ido às ruas conversar com pessoas reais, fora das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto e fora das redes sociais. O Chega conquistou terreno precisamente onde há mais populações dessa etnia. O caminho é a inclusão. Mas a inclusão real. Não o fecho dos olhos às realidades. Graças ao fechar os olhos à realidade é que agora temos estes 12 deputados no parlamento. Porque é que não apresentaram propostas que contrapusessem e desconstruíssem de forma clara as propostas deles? Seria fácil, pois na verdade eu não percebi qual é a proposta real deles. Obrigar todos a trabalhar? Como assim? Karl Marx é que queria obrigar toda a gente a trabalhar. Qual a proposta para quem não aceitasse trabalhar pela força? A "solução final"? Não entendi. Bom, a verdade é que o partido defendeu a nacionalização da TAP, dinheiro que corresponderia a mais de uma década de manutenção do Rendimento Social de Inserção para os beneficiários dessa etnia. A Iniciativa Liberal soube bem atacá-los e desmobilizar-lhes alguns votos com isto. E os outros? Pintaram os lábios de vermelho, adjetivaram-nos de "fachos", gritaram "não passarão!". De que serviu? Serviu para o partido se vitimizar. No outro dia vi um vídeo dos 12 apóstolos... perdão, deputados eleitos pelo Chega, a cantarem o hino nacional com a mão ao peito. Pareciam os coletivos na URSS a cantarem a Internacional Socialista. "Heróis do... pé oh vítimas da fome...". Aqui um interessante artigo sobre a ascensão do Chega nestas eleições:

"Assim, a IL supera o Chega em concelhos grandes e com elevados níveis de escolaridade, como Oeiras, Cascais ou Lisboa. Já o Chega teve melhores resultados em concelhos como Loures, Almada ou Seixal, tradicionalmente com maior presença comunista."

Coletivistas a substituírem coletivistas? "Deus, Pátria, Família e Trabalho", "Deus acima de tudo, Brasil acima de todos", "Make America Great Again", soa-me tudo bastante coletivista, Estado acima do indivíduo, Nação acima do indivíduo...

Iniciativa Liberal (IL): O partido tem mobilizado alguma abstenção, captou algum eleitorado neutro e muitíssimo voto jovem. Acredito que muitos adultos de meia idade tenham votado IL também ao ver que os seus filhos emigraram ou tencionam emigrar para a Irlanda ou para a Holanda. Alguns eleitores da IL vieram também do PSD e do CDS, embora pelo que tenho observado parece-me que não é assim tão significativo este último fator. O partido leva o bicho papão do Liberalismo no nome e no programa. Está a conseguir desconstruir os preconceitos ideológicos instalados no país sobre essa palavra. O partido autoproclama-se como liberal em todas as frentes: social, política e económica. Daí serem a favor da legalização do direito à eutanásia em casos de doentes em extremo sofrimento, serem a favor da liberalização da canábis para fins recreativos (sem monopólio comercial estatal), menor carga fiscal, liberdade de escolha, descentralização... Ainda têm, contudo, muito para desconstruir. Têm de conseguir provar a quem depositou o seu voto neles - e obviamente aos que não - que eles têm uma visão realmente liberal da sociedade e não uma mera visão empresarial da sociedade. Além disso, terão de provar que são um partido sem grandes dogmas ideológicos, pois a partir do momento em que aceitamos o direito à propriedade privada (não à exclusividade privada), aceitamos o direito ao lucro, aceitamos que as pessoas devem ter as suas liberdades individuais garantidas desde que essas liberdades não limitem as liberdades dos outros, todos podemos ser considerados liberais conforme variadas e inúmeras visões. Não há consensos claros no mundo sobre o que é ser liberal. Para muitos, a imagem que o partido passa é a de que "O empresário sonha, a obra nasce". Terão 4 anos agora para desconstruir todos os preconceitos e continuar a crescer pois têm muita margem de crescimento (ou de regressão) para além dos 8 deputados eleitos.

Concluindo. Defendo que é necessário alterar a lei eleitoral. Da forma como os círculos eleitorais estão organizados serão sempre beneficiados os maiores partidos, os do "centrão", PS e PSD. Abaixo deixo uma imagem que encontrei na internet que sugere como teria sido a verdadeira distribuição de deputados caso só houvesse um círculo geral nacional eleitoral e cada voto contasse por igual.

iConversa | 6 de fevereiro de 2022 | Fernando Tona

Músico, professor de música e malandro nos tempos livres.

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