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[PT] iConversa: A criança que ficava em casa sozinha, coitadinha!

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iConversa em texto nº1 | Sábado 7 de novembro de 2020

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Era uma vez uma criança nos anos 90, lusodescendente, branca, num país extremamente seguro como a Venezuela (risos), que por vezes caminhava sozinha numa cidade já na altura com mais de 1 milhão de habitantes. Mesmo que não, só o ter aspecto "meio europeu" poderia ser símbolo de riqueza. Os sequestros express estavam na moda e ao rubro nos noticiários nacionais. Esta criança algumas vezes sujeitava-se, coitadinha, a apanhar autocarros para ir para o Karaté, pagava ao senhor do autocarro ou tinha uma espécie de tickets estudantis para pagar.

https://pixabay.com/photos/bus-transportation-people-aisle-690508/

Por vezes ia para o estabelecimento comercial dos pais, padaria, pastelaria, charcutaria e delicatesses. Lá trabalhava por vontade própria e por incentivo dos pais, não por obrigação, e ora brincava. Lá, ouvia bonitas palavras dos clientes por verem honroso e ao mesmo tempo fofo uma criança atendê-los e tão bem! Era também acarinhada pelos trabalhadores. Assim, aprendia que todos somos importantes, independentemente do estrato social ou posição "patrão/empregado" que tenhamos. Fazia contas, o que exigia alguma responsabilidade, e tirava ensinamentos para a vida partindo dessa experiência. Depois de os clientes serem atendidos, estes levavam um cartão com o preço dos produtos escrito à mão e apresentavam-no na caixa para pagamento. Estes elogios, este ser inserido no meio do trabalho de maneira semi-lúdica: ¡Como faziam desta criança sentir-se importante, valorizada, tomada em conta, e quão bem isto lhe fazia!

https://pixabay.com/photos/bread-baguette-bakery-food-923865/

Essa criança frequentava o 5º ano de escolaridade. Essa criança de classe média, que posteriormente por infortúnios da vida durante a adolescência desceu drasticamente de status social até ao nível "zurrapa", era um menino filho único. O seu pai era um português cliché que tinha uma padaria e trabalhava nela de segunda a segunda, doze ou mais horas por dia. A sua infância de pobreza extrema naquele Portugal salazarista só lhe permitira obter a "antiga quarta classe" de escolaridade. Apesar de bom aluno, um dos melhores e dos mais curiosos até, segundo reza a lenda, vira-se forçado a ajudar a mãe a criar os seus irmãos mais novos, pois o pai da família também não assumia com responsabilidade o rol que deveria. Infelizmente não tivera qualquer apoio social do Estado. O Estado era para os grandes lavradores e filhos dos grandes lavradores, para os filhos dos advogados, dos médicos. Os estudos, do ponto de vista dessa família, ou segundo a realidade dessa família, eram para os privilegiados com heranças, património material, liquidez financeira, passivos, mesmo sem terem feito nada por isso para além de nascer donos de alguma boa propriedade privada. Essa realidade assim determinara o futuro desse pai: habituar-se a trabalhar de segunda a segunda para tentar crescer na vida.

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Já a mãe, venezuelana pura nascida no pós-ditadura militar, com melhor escolaridade, chegara a frequentar o curso superior em medicina mas sem conclusão, por dentre outros motivos ser proveniente de uma família também numerosa e de escassos recursos. Apesar de o Estado nesse país já se assumir como importante parte responsável pelo bem estar e desenvolvimento da sociedade também na saúde e educação, que como sabemos implica por si um delicado compromisso entre direitos sociais e liberdade económica privada, não era o suficiente para atender problemas consequentes de famílias muito numerosas. Coisas "do passado", enfim. Whatever...

"Bulevar de Sabana Grande, años 60. https://www.notiactual.com/cuando-eramos-ricos-y-no-lo-sabiamos-fotos-de-la-venezuela-sin-socialismo/

Esta mãe muitas vezes podia ser dona de casa e estar com o filho, acompanhar os seus estudos e tirar-lhe dúvidas, incentivá-lo a estudar que era necessário porque a este, já que compreendia tudo na escola à primeira, não lhe apetecia perder tempo a fazer las tareas del colegio. Não faltava roupa lavada e passada a ferro, tacho na mesa, mas nalgumas vezes também tinha de trabalhar com o pai e ao mesmo tempo não descuidar os considerados afazeres quase que exclusivos de mãe segundo os costumes da altura.

A avó tinha muitos filhos, e consequentemente ainda mais netos. Por isso também não sempre podia tomar conta deste netinho. Isto fazia com que a criancinha ficasse muitas vezes sozinha em casa: coitadinha!.

Desenganemo-nos, essa criança apesar de passar muito tempo sozinha coitadinha, também tinha bastantes privilégios. Frequentava colégios privados de classe média pois a qualidade do ensino da escola pública estava em declínio. Nesse país haviam colégios privados para ricos, para milionários e também mais modestos para a classe média. Essa criança teve acesso à prática de desportos, karaté, baseball, natação, taekwondo. Tinha as suas boas prendinhas de natal. Tinha videojogos, na altura a famosa NES e posteriormente a Playstation 1! Essa criança solitária, coitadinha, às vezes ia ao dicionário tentar perceber o que aqueles videojogos em inglês lhe diziam. Absolutamente ninguém em casa nem na família falava ou "arranhava" sequer o inglês. Nos colégios, mesmo que privados com prestígio, o ensino do inglês era desastroso. Eram raras as instituições educativas nas quais a disciplina de inglês não se limitasse a ensinar apenas o verbo to be, e palavrinhas como window, door, yellow, table, water...

https://pixabay.com/photos/video-game-console-video-game-play-2202580/

Sonhava aprender música, mas, nos conservatórios públicos, só um no seu Estado na verdade, só se entrava com "contactos" pois as vagas eram tão limitadas e entupidas que nem havia direito à prestação de provas de aptidão. Por outra parte, as escolas de música privadas com qualidade eram longe de onde morava. Ainda frequentou uma escolinha de música do outro lado da sua cidade, Barquisimeto, perto do aeroporto, mas não deu para mais do que algumas semanas pois esta situava-se longe da sua residência, tendo de atravessar uma zona bastante mais perigosa para lá chegar, e o dinheiro ele havia mas não em exuberância. O maior contacto que conseguiu ter com a música foi ter um teclado elétrico como prenda e com o qual, por espontaneidade e curiosidade autodidata, conseguiu "tirar de ouvido" a melodia dos casamentos, aquele "ta-ta-ta-tá" da conhecida marcha nupcial. Além disto, cantou, tocou tambores e dançou muitíssimo na escola, na disciplina de folklore. Também dançou com as primas, avó, mãe, tias, nas festas de aniversário, de passagem de ano e doutro tipo de encontros familiares. Ainda, nalguma festinhas da escola com as meninas, embora com muita vergonha: Salsa, merengue, joropo, gaitas, tamunangue, etc. Contudo, essa disciplina de folklore não era só dedicada à música para cantar e dançar, ali aprendia-se xadrez, a fazer manualidades com argila, e realizava-se muitas outras atividades artístico-culturais. Esse menino ouvia, isso sim, muitas cassettes, CDs e vinis. Naquela altura dos anos 90, os CDs, cassettes e vinis circulavam em simultâneo na sociedade venezuelana, apesar de gerações temporal e tecnológica muito diferentes. Esta criança muitas vezes na sua solidão, coitadinha que desastre, enquanto ouvia música, dedicava-se à imaginação, à contemplação ou à criação de "futilidades". Aquela sensação de só ouvir música enquanto se observa as imagens na capa física dos álbuns e do workart, remetendo-nos para o campo da introspeção, sonhar, tão bom...

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Apesar de todos os saudáveis privilégios, do que mais essa criança adorava era brincar aos carrinhos em miniatura na terra e sujar-se com os primos, de jogar com berlindes e outros objetos lúdicos, de imaginar e criar caminhos, casas, na terra, de brincar às escondidas, de falar de miúdas e namoricos, de engendrar planos de conquista ao sexo oposto e de saber dos planos dos outros, de conversar com os mais velhos sobre isso. Mas estar com a família só ao fim de semana praticamente pois esta morava fora da cidade. Às vezes recebia visita de coleguitas da escola ou ia a casa de algum coleguita, durante a semana, mas com raridade. Quando não estava na escola esta criança estava algumas vezes sozinha em casa: coitadinha!

Esta criança conta-me uma anedota da qual se lembra de aquando no sexto ano na escola, sim sexto ano, ter ido ao centro comercial com planos de cinema com colegas de turma, e de ter gasto o voluptuoso capital todo (risos) que o pai lhe dera, comprando doces e bebidas para uma garina que tentara galantear mas que o deixara a chupar no dedo. Parvoíces de rir no pós ou como diria o meu velho: "às vezes pensamos que vamos dar uma e acabamos mas é por levar duas!". Erros e experiências próprias do desenvolvimento da sexualidade. Essa "criança" (até que idade somos mesmo crianças? Ou vá, qual a diferença entre sermos crianças e de sermos abebezados? reflitamos mesmo nisso) ainda se lembra de os primeiros colegas começarem a falar em masturbação. Sim, no sexto ano, em etapa de transição de interesses portanto, apesar de não se passar à prática no início, já se cuchichava sobre o tema masturbação, sem se saber bem o que era ao pormenor e sem a experimentar em si próprio (e muito menos nos outros, nem pensar nisso é bom! risos). A sexualidade, as hormonas estavam a dar sinais de curiosidade e de despertar. Meninas que eram chamadas à atenção para irem à casa de banho retirar o batom vermelho que tinham levado para a escola pois violava as normas. Miúdas que tentavam, subversivamente quiçá, enrolar a saia do uniforme subindo-a para acima do joelho. Isto não era permitido. ¡Ai aprender canções para cantar às meninas pelas quais se apaixonava!

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Saltemos para mais perto do presente. Reflitamos. Talvez este background é o que tenha valido a essa criança para, durante a adolescência, ter procurado trabalhos de verão que o ajudassem a sustentar gostos que os seus pais já não mais lhe podiam dar, por infortúnios da vida que lhe ultrapassavam. Afinal de contas era um estudante menor de idade. Essa criança, agora adolescente em terras lusas, teve o sonho de estudar música e assim o concretizou, com todas as dificuldades. Umas vezes os pais pagavam a mensalidade, outras vezes ele próprio o fazia com os seus trocos de trabalhos de verão e com as festas e romarias da banda filarmónica. Já no fim da adolescência também os trocos lhe serviam para beber uns copos nas festas de finalistas do secundário e para sair com os amigos maiores de idade que já conduziam. Esse dinheiro também serviu para pagar mais de metade da carta de condução. Contraiu a sua primeira dívida já na universidade para comprar carro, sem qualquer inicial do papá ou da mamã, para conseguir deslocar-se para o seu primeiro posto de trabalho formal: Atividades de Enriquecimento Curricular. Ainda antes na verdade, também a crédito durante o primeiro ano da faculdade comprara o seu primeiro computador portátil a pagar em 24 meses. Jamais tivera computador pessoal antes. Os computadores aos quais acedera recorrentemente eram da bibioteca da escola, da biblioteca municipal, das mediatecas e das casas de alguns amigos. Contra tudo e contra todos, com todas as dificuldades, com muitos altos e baixos emocionais normais da vida, essa criança licenciou-se e mestrou-se enquanto trabalhador-estudante. Graças (ou desgraças?) à sua personalidade adquirida, com todas as suas idiossincrasias, algumas pessoas que lhe queriam bem, principalmente seus antigos professores de música, lhe deram alguma ajuda e orientação para enfrentar muitos desafios. Para alguém fora do nosso seio familiar realmente querer o nosso bem é preciso merecê-lo. E esse merecimento conquista-se com mérito, esforço e um bom toque de valores como honestidade, bondade e simpatia, educação, hábito de dizer "bom dia" com um sorriso e a olhar nos olhos, fruto de vários anos de "formação para a cidadania" ainda que fora do ensino regular.

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Perante este texto, que nem se entende como veio aqui parar, nem como deu tantas voltas, ou se calhar até sim, e tendo em conta estarmos em crise pandémica no momento da escrita destas notas, surge uma interrogação, a qual mencionarei já em breve.

Neste momento diz-se que "as escolas não podem encerrar" porque as crianças não podem ficar em casa. Se as criancinhas ficarem em casa os pais têm de estar com elas e não podem trabalhar. Se os pais não trabalharem a economia pára e "a economia não pode parar". Até à escola primária inclusive é perfeitamente compreensível, sem necessidade de muitas explicações, que as crianças não possam, ou não devam vá, ficar sozinhas em casa. Mas fora estas, porque é que as "crianças não podem ficar em casa"? Porque é que uma "criança" do 5º ao 12º ano de escolaridade não pode ficar em casa durante uma etapa passageira e sem precedentes da humanidade? Comida? Ensina-se a cozinhar um arrozinho! Medo que se queime? Deixa-se algumas rações feitas no dia anterior que é só aquecer no microondas. Pequeno almoço e lanche é um perigo porque pode cortar-se com a faca ao abrir o pão? abre-se o pão com as mãos que também dá ou come-se cereais com leite, ou bebida de soja para os vegans, há soluções! Ensina-se a ligar para a polícia, para o 112, chega-se a acordo de colaboração e cooperação com os vizinhos para o caso de haver algum problema ou necessidade extraordinária, vai-se estando em contacto telefónico ou por videochamada ao longo do dia para verificar se está tudo bem.

Obviamente há algumas crianças que, infelizmente em condições familiares muito precárias ainda na Europa desenvolvida e vanguardista primeiro-mundista do século XXI, precisam de ir à escola para comer, ou até para estar em contacto o menor tempo possível com quem têm em casa. Também há crianças que não têm recursos tecnológicos por dificuldades financeiras. Para estas, usem-se as bibliotecas municipais e escolares, computadores das salas dos professores e das salas de aulas, das salas de TIC, há computadores que cheguem nestes locais, com acesso à internet, para se poderem abrir estas exceções aos alunos que realmente não podem ficar em casa. E também, há pessoas que emprestam computadores se for necessário. Eu fi-lo na primeira vaga da pandemia e não me arrependo. Abram-se exceções para todas estas crianças e também, como supramencionado, para as crianças até à escola primária. Fora estas, reforço a interrogativa: Porque é que as crianças não podem ficar em casa mesmo? oh coitadinhas!

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(Post scriptum et in ludens feci: que idade tem a criança? resposta: 15 anos!)

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Fernando Tona, 7 de novembro de 2020

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